terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

"Sou branca mas não sou burra"

Antes de andar um bocadinho para trás no tempo e contar algumas das peripécias vividas nos primeiros dias vou contar-vos a situação que me levou a decidir escrever este blog.
Depois de uma longa reunião ontem à noite decidimos juntar-nos em grupos de 2 pessoas para nos ajudarmos mutuamente nos casos de empreendedores com maiores problemas de pagamento do empréstimo. Eu fiquei então a ajudar o Gonçalo com alguns pescadores e ele de me ajudar a mim com um outro caso.
Foi fácil perceber que iria ser uma tarefa árdua encontrar os pescadores devedores depois de o Luís e o Gonçalo terem chegado ontem a casa a contar as respostas dadas pelos pescadores que estavam nas praias quando lhes perguntavam por nomes dos pescadores que procuravam. A verdade é que eles já imaginavam porque é que estes dois brancos andavam à procura dos colegas de profissão e como camaradas que são (ou não) protegiam-se uns aos outros mentindo.
Hoje de manhã eu e o Gonçalo pusemos os pés ao caminho para tentar encontrar um dos pescadores dele, o Chale Momade. Desde as praias onde trabalha até ao bairro onde vive, estranhamente quase ninguém sabia quem era o senhor. Foi uma manhã estafante de um lado para o outro a tentar descobrir onde vivia tal homem. Quando encontrávamos alguém disposto a levar-nos a algum sítio onde pudéssemos encontrar o Chale Momade lá aparecia outra pessoa no caminho que falava em macua com o nosso guia e rapidamente o guia passava a amnésico. Lá conseguimos algumas informações soltas mas nada que nos fizesse encontrar o Chale Momade.
Manhã chegada ao fim, fomos para casa almoçar. De tarde, eu, o Luís e o Gonçalo tínhamos que ir os três para a mesma zona da ilha de maneira que fomos juntos. Chegado ao bairro dos empreendedores com os quais ia ter, separei-me deles e fui em direcção a casa da Suhura e do professor Kabura. Para vos poupar a grandes secas vou saltar esta parte porque tirando o facto de ter estado 1h à espera deles à porta de casa e de ter acabado por os ir buscar a outro lugar, nada de muito interessante se passou.
A animação começa agora quando ligo ao Gonçalo a perguntar onde estava ele e o Luís para ir ter com eles. Estavam os dois na praia dos pescadores preparados para começar a caça ao pescador do Luís, o Sekeneke. Lá fui eu, curiosa por ver como seriam as respostas dos pescadores desta vez. Começámos então a fazer perguntas numa ponta da praia cheia de pescadores e mais 200 pessoas que atacavam os barcos a tirar peixe assim que algum se aproximava da costa. O primeiro senhor a quem o Luís pelo Sekeneke disse que ele tinha ido para outro distrito e que só voltava na próxima semana. Eu engelhei um bocado o nariz com esta resposta mentirosa e para grande espanto eles começaram a rir-se (nada que seja comum neles quando nos estão a mentir descaradamente). Ainda perguntei a este primeiro senhor se o podia ir chatear caso encontrasse o Sekeneke ainda esta semana ao que ele se voltou a rir descaradamente. Assim que saímos de junto do primeiro homem apercebemo-nos de um burburinho pela praia inteira em que só percebíamos "... Sekeneke!... Sekeneke!" O mecanismo de protecção tinha acabado de ser activado e tudo fazia prever agora que não fossemos mesmo encontrar o Sekeneke. As pessoas a quem perguntámos a seguir pelo Sekeneke variavam na localização que davam do homem. Ora em Nampula, ora no continente parecia mesmo que o Sekeneke era omnipresente, apenas com uma lacuna, não estava na ilha de Moçambique. Sempre a rirem na nossa cara e a mentirem com os dentes todos, tornava-se isto também hilariante para nós. Quando os confrontávamos com as várias versões que já tínhamos ouvido a resposta era um sorriso rasgado seguido de uma boa gargalhada. Cheguei mesmo a dizer-lhes para o caso de haver alguma dúvida que nós não acreditávamos em nada do que eles estavam a dizer sempre com um sorriso na cara igual ao que eles tinham. Foi então que o homem que tinha dito que o Sekeneke estava noutro distrito veio novamente ter connosco e disse que afinal ele estava no continente e voltava no dia seguinte. Como não podia deixar de ser, ri-me. Para concluir disse-lhes que apesar de ser branca, não era burra. Foi então que a veia de político do Gonçalo entrou em acção e, a pregar para a população daquela praia, de braços erguidos, dizia-lhes que só queria o bem do Sekeneke, da população e da ilha. Qualquer pessoa que ali passasse pensaria que as autárquicas estariam próximas. Foi o momento de política do dia que resultou no mesmo sorriso de sempre nas pessoas que estavam naquela praia. Com a deixa do Gonçalo decidimos então ir embora e ir ter com um padeiro. O Gonçalo sabia exactamente onde era a casa dele e fomos lá directos. Quando chegámos perguntámos por ele a uma senhora que estava na casa e ela disse, como boa moçambicana que é, que não sabia onde estava o padeiro, o que tinha ido fazer ou a que horas voltaria. Passou ali entretanto um senhor a quem perguntámos também pelo padeiro e que disse nem sequer saber de quem se tratava mas tentou convencer o Gonçalo, juntamente com a ajuda da outra senhora, a entrar dentro da casa. Foi então que o padeiro passou à porta e nos apercebemos da estratégia. O padeiro não teve grande escapatória e lá se apresentou e assistimos a mais um momento glorioso do Gonçalo agora numa vertente de economista a explicar o que eram os juros a um padeiro! Sem dúvida um dos momentos altos do dia.
Decidimos fechar então a barraca e voltar para casa mesmo sem que sentindo alguma frustração. A verdade é que não imaginávamos o que estava para vir.
Já em casa, no escritório, ouvimos o Musse (o empregado) a chamar: "Sekeneke está à porta!" e passado mais um bocado novamente: "Chale Momade está à porta!". O discurso de político do Gonçalo estava a dar os seus frutos e estamos confiantes de que o padeiro ainda venha a ir para a faculdade de economia da universidade de Maputo.
Os pescadores estiveram aqui em casa a falar bastante tempo com o Luís e o Gonçalo e foi hilariante ver como tudo se tornou de repente tão simples. Só esperemos que assim continue.
Esta foi uma história longa mas que não podia deixar de partilhar e foi por isso que estive até agora a escrevê-la.

1 comentário:

  1. LOLOl Sofs foi uma história longa mas muito fixe de ler!!! :D Vou acompanhar as tuas aventuras!!! Beijo grande
    Juanita

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