segunda-feira, 23 de maio de 2011

Há dias de manhã em que uma pessoa à tarde não pode sair à noite

Há dias de manhã em que uma pessoa à tarde não pode sair à noite!! Ontem foi o dia!
Depois de uma noite atribulada, longa em pensamentos e curta em horas de sono, acordei com uma dor de cabeça gigante. Não é muito comum em mim ter dores de cabeça por isso decidi não tomar nada logo e aguentar talvez também na tentativa de que, tendo dores, iria sempre pensar mais nelas do que noutra coisa qualquer. A manhã passou a correr e quando dei por mim já eram 11:30h. Não me perguntem o que fiz nessa manhã. Devo ter estado perdida entre dores de cabeça e pensamentos vãos. "Bem, menina Sofia, está na altura de tomares um comprimido e ires dar um mergulho à praia. Acorda para a vida!!" Este foi o raciocínio mental que me tirou de casa se bem que a insistência da Carolina também ajudou. Estava bastante vento e a brisa não era a mais convidativa para um mergulho mas digamos que, como diz a Carolina, estar num sítio destes e passar um fim de semana sem ir à praia é claramente pecado. Tomei então qualquer coisa para aliviar a pressão que sentia na cabeça apesar de saber que não era aí que estava a pressão maior, mas lá consegui enganar o corpo e por algum tempo senti-me melhor, pelo menos, fisicamente.
Apesar da brisa fresca que tentava agitar a calma maré baixa na praia da fortaleza, mantive-me dentro de água durante talvez mais de 1h. Já passava da hora de almoço quando saímos da praia e tinha combinado ir falar com o professor Kabura, um dos empreendedores que acompanho e que tem uma barbearia no Jambesse. Passei por casa para tomar um banho rápido e tirar o sal do corpo enquanto o resto do pessoal foi andando para o Âncora, o restaurante ao lado da nossa antiga casa e o único com pizzas na Ilha, o que o coloca em clara vantagem em relação aos outros apesar da simpatia inconstante da D. Eva, a dona do restaurante, de origem sueca.
Tinha combinado encontrar-me com o Amisse Assane, um outro empreendedor meu às 16h no Jambesse e, com medo de me atrasar em casa do Kabura resolvi passar por cima da hora de almoço e enganar o estômago com umas bolachas de água e sal que comprei no mercado central.
Cheguei a casa do Kabura e encontrei-o a almoçar uma refeição nada típica numa casa moçambicana: mandioca com peixe. Perguntou-me se era servida e eu agradeci mas disse para deixar para ele que está bem mais magro que eu e além disso ainda tinha mais de metade do pacote de bolachas comigo. A nossa conversa começou e foi demorada. No dia anterior tinha ido jantar à D. Mariamo e o Anza, o empregado da barbearia do Kabura, encontrou-me lá e veio-me entregar o livro de registo da barbearia onde ele aponta o valor ganho cada dia. Disse que o Kabura tinha ido à barbearia na sexta-feira e que tinha começado a cortar cabelo e que lhe tinha dito algumas coisas que davam a entender que havia ali uma certa desconfiança da parte do patrão. O Anza diz que não se sentia bem com isso e pediu-me para ir falar com o Kabura. Então ali estava eu, em casa do Kabura, a tentar perceber o que se teria passado. Assim que entrei o Kabura começou a falar sem eu lhe dizer que o Anza já tinha vindo falar comigo. Estive ali até às 15:30h e vou tentar resumir o que se passou para tornar a história o mais clara possível, mas ainda hoje tenho a sensação que nem eu percebi totalmente o que se passou.
Depois de o Kabura ter aparecido na sexta-feira para ir trabalhar com o empregado na barbearia, o Anza lá pensou que ele o queria substituir e pediu a mota ao Kabura para ir "fazer necessidade maior à praia" (já lhes disse que não é aí que se faz mas a verdade é que não existem grandes alternativas). Saiu da barbearia quase mal o Kabura chegou com a mota, eram umas 10h. Não sei se foi uma diarreia ou se ele se enganou e foi para a casa de banho das senhoras, onde todos sabemos que há sempre fila, mas a verdade é que só apareceu com a mota às 13h. Nesse dia o Kabura dava aulas na escola secundária das 18h às 22h e quando eram 17h o Anza pediu novamente a mota ao Kabura mas desta vez para finalidade incerta. O Kabura ainda disse para ele não se atrasar mas o Anza já ia em segunda e gritou apenas uma das expressões mais populares aqui e que quer dizer tudo e nada ao mesmo tempo: "Descansa, hei-de vir!". Chegaram as 18h e nada de moto nem de Anza, 19h..., 20h..., 21h..., e pouco depois das 21h apareceu um rapaz com a chave da barbearia do Kabura que este tinha junto à chave da mota e portanto nem maneira tinha de fechar a barbearia. O Anza tinha tido um problema com a mota e tinha mandado aquele miúdo entregar a chave da barbearia pois imaginava como estaria o patrão. Na verdade o Kabura era um misto de alegria e de raiva pois naquele dia em que tinha ido para ali e acabado por trabalhar sozinho tinha feito 580MTS. A verdade é que o livro de registo dos valores diários feitos na barbearia era bem diferente. o Anza entregava em média 250MTS por dia, e a média nem era muito difícil de calcular nos últimos dias porque a preocupação do Anza em variar os valores e tentar disfarçar o desfalque já tinha desaparecido. Todos os dias o valor era igual o que denunciava algo de errado e foi o motivo que levou o Kabura a passar aquela sexta-feira na barbearia. Já eram 22.30h e o Kabura já parecia a cinderela a olhar para o relógio para tentar perceber como é que ia arranjar uma chave da barbearia para poder fechar a porta e ir para casa, quando o Carlitos, um rapaz que trabalhou lá na barbearia durante umas semanas, apareceu e o Kabura deu-lhe dinheiro para ele ir a casa dele buscar uma chave que lá tinha de reserva e a trazer de volta para o Jambesse. Já passava das zero horas de sábado, como eles dizem, quando o Kabura chegou a casa. Entretanto no sábado foi o Carlitos trabalhar lá para a barbearia porque depois do que se tinha passado na sexta-feira a incerteza da presença do Anza no trabalho era grande. Nesse mesmo dia o Kabura partiu para Nampula porque, vim eu a descobrir no dia seguinte, tinha nascido um filho dele de uma mulher que ele tem em Nampula. Vamos chamar a esta senhora "A Outra" pois eu já conheço uma esposa do Kabura que vive na Ilha, chama-se Suhura e também está quase a dar à luz.
Antes de sair de casa do Kabura ele ainda me disse que talvez nos encontrássemos no Jambesse porque tinha pedido a algumas pessoas que informassem o Anza de que o Kabura queria falar com ele às 18h de domingo, na barbearia. Depois de uma conversa longa com o Kabura em que nenhum detalhe desta história foi esquecido, fui em direcção ao Jambesse, a casa do Amisse buscar "200 paus" que ele me tinha prometido dar. Parece que nem sempre o prometido é devido e o Amisse diz que estava à espera que a mulher chegasse de Nampula para me dar o dinheiro e que no dia seguinte estaria em minha casa entre as 9h e as 10h para me pagar. Ainda o fui ajudar a levar algum peixe a casa da senhora que lhe aluga o espaço no congelador e depois fui à procura do Anza no sítio combinado para lhe contar como tinha corrido a conversa com o Kabura mas não o encontrei e disseram-me que ele não tinha aparecido o dia todo. Entretanto já passavam uns minutos das 17h e decidi ficar por ali até à hora combinada entre os dois para se encontrarem apenas para garantir que corria tudo bem.
(Sofia, estás há 4 meses em África, não tens um curso nem de psicologia, nem de sociologia, e o pouco que estudaste de gestão de conflitos aplica-se a tudo menos a situações entre um moçambicano e um natural do Burundi (não quis dizer burundiano para não errar).)
Enquanto ninguém chegava e num intervalo entre clientes que o Carlitos teve na barbearia vi-o na barraca de calamidades (são as lojas cá do sítio: um plástico no chão com roupa usada ou "nova" por cima ao preço da chuva para nós que não sabemos ser agradecidos pelo muito que temos) a tentar encontrar no monte de roupa alguns babygrows. Perguntei-lhe para que era aquilo e ele disse-me que tinha tido uma filha há 2 dias. O Carlitos não tem muitas possibilidades e percebi nele aquele desejo de chegar a casa com algo para a filha mas o vazio nos seus bolsos não lhe permitia tal luxo. Percebi então que os babygrows custavam 10MTS cada um o que equivale a uns 25 cêntimos. Não resisti e comprei 5 babygrows e ofereci ao Carlitos mas ele pediu-me que fosse eu a ir lá levá-los pessoalmente e assim ficou combinado.
Entretanto chegou o Kabura pois já eram quase 18h e o Anza apareceu um tempo depois. Ao início confesso que me estava a rir por dentro com o Kabura sentado de um lado e o Anza de outro como se fossem duas crianças da escola zangadas uma com a outra. Lá fomos conversando também na presença do Carlitos que se veio a revelar o único com sanidade mental no meio daquilo tudo. Tentei que eles se entendessem e chegou a um ponto da conversa em que parecia que se estavam a entender e a chegar a uma conclusão apesar de estarem a escolher quebrar a relação de patrão e empregado que existia entre eles. O Kabura queria apenas que o Anza lhe entregasse a mota como estivesse, a chave da mota, a chave da barbearia e o contrato. Pois o Anza aceitava tudo menos entregar-lhe o contrato e já não vos sei contar em que parte da conversa íamos mas o que eu mais temia aconteceu mesmo. Começaram os dois à pancada e aqueles que me conhecem devem imaginar os berros que mandei para tentar parar aquelas duas crianças que estavam ali no chão a espernear. Abreviando a história, num sítio que parecia começar a ficar com pouco movimento, rapidamente se juntaram umas 50 pessoas a assistir à discussão e à pancadaria. Ainda se pegaram mais duas vezes mas depois de algumas conversações foi cada um para seu lado e fiquei eu e o Carlitos no meio do Jambesse com o dinheiro que se tinha feito naquele dia na barbearia, a mota do Kabura, a chave da mota e duas chaves da barbearia. Disse ao Carlitos que íamos então de mota até à Ilha e a mota ficaria em minha casa. Convém acrescentar que nalguns intervalos de toda aquela confusão liguei para o Pi e para a Marta mas a verdade é que os nervos estavam a dar-me para rir e apesar de terem perguntado se eu queria que fossem lá ter comigo, eu disse sempre que aquilo acabaria entretanto e que eu ia logo para casa.
Já em cima da ponte, mais ou menos a meio caminho, quando eu pensava que nada mais podia acontecer, a mota parou. Parecia que estava mesmo sem combustível e talvez um pouco estragada também. Passaram algumas motas mas era difícil alguma delas nos ajudar. Levavam todas entre duas a três pessoas e mais ao fundo consegui avistar as luzes de um carro. Nesse momento o Carlitos disse-me para não mandar parar o carro porque nos iam cobrar dinheiro de certeza. Eu tentei arriscar na mesma mas rapidamente me arrependi. Aquele senhor muito simpático lá nos ajudou e fui então sentada no lugar da frente, ao lado do condutor e o Carlitos na mota do lado de fora, agarrado à minha porta. Lá fomos nós andando devagarinho até chegarmos à Ilha. Por momentos aqueles 2km que faltavam para chegar à Ilha começaram a tornar-se demasiado longos. O Carlitos deve ter-me chamado mal entrei no carro e aquele senhor decorou o meu nome e em jeito de tarado engatatão perguntou: “Então o teu nome é fofa Sofia?” ao que eu respondi: “Não. É só Sofia mesmo.” A conversa não ficou por aqui e agarrou-me ainda a mão e usou a desculpa do cravo que tenho no joelho para perguntar se era uma ferida e mexer-me na perna mas eu, no meu jeito bruto, que confesso andava um bocado adormecido aqui em Moçambique, disse-lhe para se acalmar antes que eu me chateasse. Mal passámos a cancela da ponte, ainda o carro ia em andamento e já estava eu a tentar saltar fora. O senhor começou a dizer que me podia levar a casa e eu disse que estava com o Carlitos que não precisava de nada. Mas a resposta não lhe foi satisfatória e ele começou a falar em macua com o Carlitos na tentativa de descobrir onde eu vivia. Fiz uns olhos gigantes para o Carlitos e entre dentes balbuciei “NADA!!”, que é o mesmo que dizer não, mas há expressões que nos ficam entranhadas e quando damos por nós já “desconseguimos falar português correcto”. O Carlitos respondeu-lhe qualquer coisa mas entretanto consegui descer do carro e ir com o Carlitos para a bomba que é a 50m da ponte. Lá paguei 1l de gasolina para a mota mas entretanto o homem do carro lá continuava de volta a querer despedir-se e eu quase com vontade de lhe tirar o abono de família para ver se ele acalmava as hormonas. Depois de pormos gasolina pensei “Agora ponho-me a andar e este tipo desampara-me a loja!”. A mota não pegava. O problema não era só da falta de combustível, a mota estava mesmo estragada. Depois de muitas tentativas e do outro senhor continuar a insistir em ajudar lá lhe mandei um berro daqueles mesmo bons que até eu me assusto com a potência dos meus nervos e ele lá se foi embora e a mota lá arrancou. Fomos directos a casa do Carlitos para eu levar os babygrows à bebé e o Carlitos disse-me que lhe tinha posto o nome de Sofia e tinha sido por minha causa (isto já deve ser um bocado conversa fiada, mas de qualquer maneira é bonito e fica sempre bem). A mãe e a bebé gostaram muito e apesar de tanto uma como outra dizerem poucas palavras consegui perceber como estavam contentes. Saímos dali e pedi ao Carlitos que me levasse a casa na mota e me deixasse lá a mota porque assim tinha a certeza que o Kabura apareceria cá. Cheguei a casa e enquanto contava ao pessoal cá de casa o motivo de ter uma mota dentro de casa e de ter chegado àquelas horas a um domingo, ia-me rindo mas sentia uma vontade enorme de chorar. Fui para o quarto e lavei-me em lágrimas. Precisava de libertar aquela pressão toda de alguma forma. A Marta e a Carolina lá estiveram ao pé de mim e entretanto batem à porta do quarto. Era o Pi com uma garrafa de Famous Grouse! Talvez ajudasse a afogar as mágoas…

O que vale é que a noite terminou numa mesa de 12 pessoas a jantar apas e a mandar piadas de uma ponta para a outra da mesa e consegui rir tanto quanto chorei.

“Afinal em 4 meses de experiências maravilhosas, o que é ter um dia assim?”

É verdade, não é nada.

terça-feira, 5 de abril de 2011

"Sufia Alovio"

Hoje foi o dia das propostas!
Depois de uma manhã bem chuvosa em que ainda apanhei umas molhas, a tarde estava programada no Gembesse (descobri hoje que se escreve assim e não Jambesse! Peço desculpa.). Combinei com o Zainal (um dos indianos da ilha) irmos na carrinha dele transportar pedra para a igreja que estou a ajudar a construir (sobre isto falarei noutra altura). Parámos em casa do ansião para o ir buscar e quando já estava na carrinha pronta para arrancarmos, a Mariamo, mulher do ansião, vem a correr entregar-me um papel dobrado e colado com cola de farinha para ninguém abrir. A Mariamo ainda me fez sinal de quem lhe tinha dado o papel para me entregar mas já não consegui ver bem o rapaz ou senhor. O resto já vocês imaginam "Sufia Alovio". Ainda parei uns segundos mas quando li em voz alta.... Sem palavras. Que grande tesouro.
Depois de tudo isto passar, de ter ido dar uma aula ao Lumbo e de ter ficado estupefacta com o grau de burrice das pessoas que ali estavam (desculpem isto mas é a mais pura das verdades. É uma burrice que faz pena, é verdade, mas não deixa de ser burrice), voltei para a Ilha e fui a casa do sr. Himo (um indiano cá da ilha, dos seus cinquenta e tal anos, do partido MDM, das pessoas mais simpáticas que aqui há e que nos ofereceu um banquete lá em casa no fim de semana passado). O Himo tinha pedido para lá por casa porque queria falar comigo. O filho tem uma quinta no Gembesse com um minimercado e ele tem um projecto de fazer ali umas bombas de combustível e queria que eu desse uma vista de olhos no processo que ele vai mandar para o banco. O filho mais velho trabalha num banco em Nampula na secção de concessão de crédito e por isso o empréstimo parece-me estar mais do que garantido. De qualquer maneira, a ajuda que ele queria era para os papéis que precisa de entregar no banco. Mas lá para o final da conversa ele começou a dizer que então depois enviava as folhas lá para o banco e quando voltassem que gostava que eu ficasse responsável por aquele empreendimento. Eu ri-me e disse que ia voltar para Portugal e ele disse: "Mas porquê? Até te podíamos fazer uma casa ali na quinta dos D'es... Pensa nisso. Quando vier a resposta do crédito falamos melhor!" Voltei para casa a rir-me da situação e ....... estou sem palavras.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Aulas de Negócios

Esta semana começaram em grande as nossas aulas de negócios na escola profissional. A primeira aula foi na passada sexta-feira e foi apenas uma aula de apresentação em que falamos um bocadinho daquilo que pretendíamos com estas aulas e o que é que eles podiam esperar da formação.
Resolvemos pedir a cada um que se apresentasse e também que contasse algum sonho de vida e como se tratavam de aulas de negócios eles só conseguiram falar de coisas relacionadas com negócios. Cada um se foi apresentando e dizendo os seus sonhos sempre no seu vocabulário moçambicano. Chegou a vez do Assanito Paulo falar de si e dos seus sonhos e começou a contar a história do seu negócio de extracção de madeira e acho que não vale a pena perguntar a nenhum de nós qual o conteúdo do discurso sobre o negócio porque a partir do momento em que ele disse "...mas estou a DESCONSEGUIR continuar com meu negócio de extracção de madeira..." tentámos apenas não trocar olhares entre nós para não sair dali uma gargalhada geral. Esta palavra usada pelo Assanito é recorrente no vocabulário Moçambicano e já é usada por nós também nalgumas brincadeiras e dá sempre lugar a alguns risos. Mas quando juntamos à palavra desconseguir o sotaque genuíno de um moçambicano... Não há palavras. Estou a desconseguir explicar!!

quarta-feira, 16 de março de 2011

"E actualizar o blog que era bom, não?"

Depois de algum tempo de ausência aqui no blog, a única justificação que tenho para vos dar é que realmente há coisas que se vivem nesta terra, que são quase impossíveis de descrever. Mas a pedido de algumas famílias, e já não é só da minha, hoje decidi contar-vos um bocadinho da história de cada empreendedor que estou a acompanhar para perceberem um bocadinho aquilo que estou aqui a fazer.
Em primeiro lugar, e sem querer citar nomes ou levantar falsos testemunhos, houve aqui malta no grupo que recebeu empreendedores que pagam tudo direitinho e que não dão problemas nenhuns. Não sei como é que isto foi feito nem me vou pronunciar sobre esse assunto mas eu quando aqui cheguei vinha acompanhar 4 casos antigos: Um professor que tinha um cabeleireiro que tinha sido assaltado e que estava fechado (o cabeleireiro do Kabura e da Suhura, a sua esposa); Um serralheiro coxo e mentiroso que deve mais ao banco do que aquilo que pediu emprestado (O Joaquim Júnior, mais conhecido por Sr. Bebé); Um carpinteiro, o Amisse Assane, que estava desaparecido e que afinal o irmão é que era carpinteiro e já morreu, o problema é que o empréstimo estava em nome do Amisse; O bar do Júpiter que quando cheguei estava fechado porque ele não tinha guardado dinheiro das vendas para repor o stock de produtos no bar. Como vêm estou bem servida e aventuras não me faltam.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Casamento na Ilha

No passado fim de semana a ilha parou para assistir ao casamento de um sueco com uma moçambicana. Como brancos que somos, alguns de nós que conheceram o irmão da noiva no dia anterior ao casamento foram automaticamente convidados. O casamento foi na igreja católica aqui mesmo junto a nossa casa às 14h de sábado e eram muitos os estrangeiros no casamento. Quase todos os brancos que estão na ilha foram convidados e foi interessante ver a animação do povo da ilha com tanta gente e uma festa tão grande por estas bandas.
Bem, a animação começa apenas à noite porque o convite que recebemos foi para aparecer apenas na festa já depois do copo de água. Quando chegámos já não estava muita gente mas ainda assim decidimos ficar só pela animação de termos sido convidados para o casamento. O bolo da noiva estava ainda junto das bebidas e parecia que tinha sido apenas comido o primeiro andar do bolo pois já não tinha a cobertura do último andar, mas na verdade nada tinha sido comido e apenas tinham tirado a base que teria os bonecos ou algo assim do género. O Pi, como convidado que tinha sido, e a pensar que o bolo de noiva já tinha sido aberto, decidiu cortar, à mão, num golpe de karaté, uma fatia de bolo. Despedaçou um bocado do andar de cima e foi a única pessoa que provou do bolo naquele dia. Estava bom , Pi? É só para os noivos saberem. QUE PANCADÃO!!!!!

O cabeleireiro do Kabura

A pedido de algumas famílias aqui vai uma nova história para o blog.
Depois do processo de investigação acerca dos cabeleireiros do professor Kabura, lá fui falar com ele e confrontá-lo com os factos que tinha encontrado. A verdade é que me apercebi de que afinal toda a família do Kabura tem cabeleireiros e como ele é o único dos irmãos que fala português, é ele que vai aos cabeleireiros tratar de todos os assuntos. Apesar de eu estar enganada e de ele me ter explicado porque é que todas as pessoas pensavam que os cabeleireiros eram dele, o Kabura percebeu que eu ia andar em cima dele. O caso do Kabura era um pouco complicado porque ele ainda deve 19000mzn e teve que fechar o cabeleireiro porque este tinha sido assaltado. A minha questão era, como é que eu vou ajudar este homem a pagar um valor destes se a única fonte de rendimento que existe numa casa para 6 ou 7 pessoas é o salário dele de professor que são 4000mzn? Eu já tinha andado no Jambesse à procura de um novo sítio para ele montar o cabeleireiro mas não estava a ser fácil. Os frutos da conversa que tive com ele em que lhe mostrei que o maior interessado nisto tudo era ele e que não podia ser só eu a mexer-me foram surgindo. Na semana passada o Kabura foi comigo ao Jambesse para me mostrar um sítio que tinha encontrado para o cabeleireiro e andei a ajudá-lo a passar algumas coisas que tinha na barraca antiga para a nova e hoje estive no Jambesse com o Carlos que vai ser o empregado do novo cabeleireiro. Já limparam a barraca toda e fizeram a instalação eléctrica. As coisas estão encaminhadas e sinto que começo de alguma forma a ajudar esta gente.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

CSI Moçambique

Hoje teve lugar a operação CSI Moçambique. Um dos negócios que me foi passado pelo Salvador foi o de um cabeleireiro no Jambesse que tinha sido assaltado e tinham roubado a aparelhagem e a televisão e como é de esperar um cabeleireiro sem aparelhagem nem televisão não consegue cortar cabelos. (A verdade é que todas as barbearias e cabeleireiros por estes lados chamam a clientela pelo barulho que fazem).
O professor Kabura, dono do cabeleireiro e que ainda deve muito do dinheiro do empréstimo, é professor na escola secundária e recebe bastante bem para os salários de cá. A única questão é que ele sustenta a mulher, os filhos, os sogros, as cunhadas, os sobrinhos e mais não sei quantas pessoas. Como é óbvio fiquei cheia de pena e não tive coragem sequer para lhe pedir para pôr um bocadinho do salário de parte para pagar o empréstimo.
Acontece que quando fui ao Jambesse à procura do Amisse Assane andei também à procura do antigo espaço do cabeleireiro e encontrei duas pessoas que me disseram que o professor tinha mais um cabeleireiro no Tocolo e uma barbearia na ilha.
Como não poderia deixar de ser decidi investigar e hoje fui até ao Tocolo em busca do cabeleireiro do professor Kabura e tenho a dizer que o descobri. Depois desta investigação amanhã vou confrontá-lo com esta situação. Vamos ver como corre... É o chamado "Paga o que deves!"

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Quem é vivo sempre aparece...

Na quarta-feira passada fui numa missão impossível ao Jambesse (a primeira localidade do continente) à procura de um carpinteiro perdido desde a primeira edição. Não tinha a foto do senhor mas tinha o nome dele e a profissão. Com um nome tão estranho como Amisse Assane pensei que com um pouco de persistência conseguisse encontrar o senhor naquele dia.
Saí de manhã de casa com o Pi e a Marta em direcção ao Jambesse num maravilhoso chapa. Ao chegarmos, cada um foi para seu lado tentar contactar os seus empreendedores e lá fui eu na minha aventura que pareceu terminar rapidamente. Depois de perguntar a 10 pessoas pelo Amisse Assane que era carpinteiro veio um rapaz ter comigo a dizer que o pai dele se chamava Amisse e era carpinteiro. Fiquei então à espera do senhor durante cerca de uma hora quando descobri que o senhor não tinha como último nome Assane e não era portanto a pessoa que eu procurava. Já um pouco frustrada, continuei a minha busca pelo carpinteiro e descobri que o Jambesse era muito maior do que eu pensava e que na mesma localidade podiam existir cinco ou mais pessoas com o mesmo nome próprio e a mesma profissão. Cheguei mesmo a dar uns refrescos a uns miúdos por duas vezes a pensar que me tinham levado à pessoa certa. Depois de uma manhã inteira a andar no Jambesse decidi voltar para a ilha para recuperar o ânimo e voltar na manhã seguinte. Quando cheguei a casa falei no que se tinha passado e o Luís lembrou-se que havia umas fotos de alguns dos primeiros empreendedores no escritório. Lá fui eu então e realmente descobri a foto do Amisse Assane. Agora a minha tarefa tornava-se mais fácil.
Na manhã seguinte pus-me a caminho, novamente de chapa, até ao Jambesse. Logo ao chegar perguntei às primeiras pessoas que encontrei se conheciam o senhor da fotografia e se sabiam onde eu o podia encontrar. Rapidamente um senhor me respondeu que eu já tinha estado ao pé da casa do Amisse no dia anterior e disse-me onde era. Quando cheguei ao local comecei a perguntar à vizinhança qual era a casa e depois de todos terem mentido, lá consegui descobrir qual era a casa e fui bater à porta. Primeiro veio um rapaz à porta que apenas me disse que o Amisse não estava e depois de alguma insistência a mulher do Amisse veio à porta e disse que ele estava para Nampula. Deu-me a sensação que ela estaria a mentir e decidi então esperar ali à porta. Houve alguma insistência para que me fosse embora dizendo que o Amisse só voltaria na segunda-feira mas apercebi-me de que alguns miúdos me queriam dizer qualquer coisa mas ao mesmo tempo estavam com algum receio e decidi ficar e esperar. Após mais de quatro longas horas de espera o Amisse apareceu e falei um pouco com ele. Ele até pareceu satisfeito por me ver e tenho a dizer que no dia seguinte, sexta-feira, foi bater à nossa porta para entregar algum dinheiro. Senti-me uma verdadeira heroína até porque começo a bater records na minha capacidade de espera.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

As famosas falhas de energia

É quando começa a escurecer que a luz começa a ser precisa. Pode parecer um bocado estúpido dizer isto mas acho que eles ainda não perceberam esta ideia. A energia faltou no preciso momento em que íamos precisar dela e como não podíamos usar o fogão que é eléctrico fomos pôr mãos à obra a tentar acender o fogão a carvão que o Musse usa praticamente todos os dias. Que aventura! Gastámos uma caixa de fósforos, um jornal, umas palhotas do telhado do terraço e meio frasco de álcool. O desespero foi notório e quando os fósforos se acabaram decidimos mesmo ir para a rua onde a luz do luar sempre ilumina mais qualquer coisa. Agora estamos de volta à cozinha a fazer o jantar. Na verdade o Luís é que está de serviço a chefe de cozinha.
Cá nos vamos habituando às frequentes falhas de energia que se fazem sentir em toda a ilha, o que nos garante que não foi o cadillac que acabou.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

"Sou branca mas não sou burra"

Antes de andar um bocadinho para trás no tempo e contar algumas das peripécias vividas nos primeiros dias vou contar-vos a situação que me levou a decidir escrever este blog.
Depois de uma longa reunião ontem à noite decidimos juntar-nos em grupos de 2 pessoas para nos ajudarmos mutuamente nos casos de empreendedores com maiores problemas de pagamento do empréstimo. Eu fiquei então a ajudar o Gonçalo com alguns pescadores e ele de me ajudar a mim com um outro caso.
Foi fácil perceber que iria ser uma tarefa árdua encontrar os pescadores devedores depois de o Luís e o Gonçalo terem chegado ontem a casa a contar as respostas dadas pelos pescadores que estavam nas praias quando lhes perguntavam por nomes dos pescadores que procuravam. A verdade é que eles já imaginavam porque é que estes dois brancos andavam à procura dos colegas de profissão e como camaradas que são (ou não) protegiam-se uns aos outros mentindo.
Hoje de manhã eu e o Gonçalo pusemos os pés ao caminho para tentar encontrar um dos pescadores dele, o Chale Momade. Desde as praias onde trabalha até ao bairro onde vive, estranhamente quase ninguém sabia quem era o senhor. Foi uma manhã estafante de um lado para o outro a tentar descobrir onde vivia tal homem. Quando encontrávamos alguém disposto a levar-nos a algum sítio onde pudéssemos encontrar o Chale Momade lá aparecia outra pessoa no caminho que falava em macua com o nosso guia e rapidamente o guia passava a amnésico. Lá conseguimos algumas informações soltas mas nada que nos fizesse encontrar o Chale Momade.
Manhã chegada ao fim, fomos para casa almoçar. De tarde, eu, o Luís e o Gonçalo tínhamos que ir os três para a mesma zona da ilha de maneira que fomos juntos. Chegado ao bairro dos empreendedores com os quais ia ter, separei-me deles e fui em direcção a casa da Suhura e do professor Kabura. Para vos poupar a grandes secas vou saltar esta parte porque tirando o facto de ter estado 1h à espera deles à porta de casa e de ter acabado por os ir buscar a outro lugar, nada de muito interessante se passou.
A animação começa agora quando ligo ao Gonçalo a perguntar onde estava ele e o Luís para ir ter com eles. Estavam os dois na praia dos pescadores preparados para começar a caça ao pescador do Luís, o Sekeneke. Lá fui eu, curiosa por ver como seriam as respostas dos pescadores desta vez. Começámos então a fazer perguntas numa ponta da praia cheia de pescadores e mais 200 pessoas que atacavam os barcos a tirar peixe assim que algum se aproximava da costa. O primeiro senhor a quem o Luís pelo Sekeneke disse que ele tinha ido para outro distrito e que só voltava na próxima semana. Eu engelhei um bocado o nariz com esta resposta mentirosa e para grande espanto eles começaram a rir-se (nada que seja comum neles quando nos estão a mentir descaradamente). Ainda perguntei a este primeiro senhor se o podia ir chatear caso encontrasse o Sekeneke ainda esta semana ao que ele se voltou a rir descaradamente. Assim que saímos de junto do primeiro homem apercebemo-nos de um burburinho pela praia inteira em que só percebíamos "... Sekeneke!... Sekeneke!" O mecanismo de protecção tinha acabado de ser activado e tudo fazia prever agora que não fossemos mesmo encontrar o Sekeneke. As pessoas a quem perguntámos a seguir pelo Sekeneke variavam na localização que davam do homem. Ora em Nampula, ora no continente parecia mesmo que o Sekeneke era omnipresente, apenas com uma lacuna, não estava na ilha de Moçambique. Sempre a rirem na nossa cara e a mentirem com os dentes todos, tornava-se isto também hilariante para nós. Quando os confrontávamos com as várias versões que já tínhamos ouvido a resposta era um sorriso rasgado seguido de uma boa gargalhada. Cheguei mesmo a dizer-lhes para o caso de haver alguma dúvida que nós não acreditávamos em nada do que eles estavam a dizer sempre com um sorriso na cara igual ao que eles tinham. Foi então que o homem que tinha dito que o Sekeneke estava noutro distrito veio novamente ter connosco e disse que afinal ele estava no continente e voltava no dia seguinte. Como não podia deixar de ser, ri-me. Para concluir disse-lhes que apesar de ser branca, não era burra. Foi então que a veia de político do Gonçalo entrou em acção e, a pregar para a população daquela praia, de braços erguidos, dizia-lhes que só queria o bem do Sekeneke, da população e da ilha. Qualquer pessoa que ali passasse pensaria que as autárquicas estariam próximas. Foi o momento de política do dia que resultou no mesmo sorriso de sempre nas pessoas que estavam naquela praia. Com a deixa do Gonçalo decidimos então ir embora e ir ter com um padeiro. O Gonçalo sabia exactamente onde era a casa dele e fomos lá directos. Quando chegámos perguntámos por ele a uma senhora que estava na casa e ela disse, como boa moçambicana que é, que não sabia onde estava o padeiro, o que tinha ido fazer ou a que horas voltaria. Passou ali entretanto um senhor a quem perguntámos também pelo padeiro e que disse nem sequer saber de quem se tratava mas tentou convencer o Gonçalo, juntamente com a ajuda da outra senhora, a entrar dentro da casa. Foi então que o padeiro passou à porta e nos apercebemos da estratégia. O padeiro não teve grande escapatória e lá se apresentou e assistimos a mais um momento glorioso do Gonçalo agora numa vertente de economista a explicar o que eram os juros a um padeiro! Sem dúvida um dos momentos altos do dia.
Decidimos fechar então a barraca e voltar para casa mesmo sem que sentindo alguma frustração. A verdade é que não imaginávamos o que estava para vir.
Já em casa, no escritório, ouvimos o Musse (o empregado) a chamar: "Sekeneke está à porta!" e passado mais um bocado novamente: "Chale Momade está à porta!". O discurso de político do Gonçalo estava a dar os seus frutos e estamos confiantes de que o padeiro ainda venha a ir para a faculdade de economia da universidade de Maputo.
Os pescadores estiveram aqui em casa a falar bastante tempo com o Luís e o Gonçalo e foi hilariante ver como tudo se tornou de repente tão simples. Só esperemos que assim continue.
Esta foi uma história longa mas que não podia deixar de partilhar e foi por isso que estive até agora a escrevê-la.
Não foi preciso muito tempo em Moçambique para me fazer começar a escrever este blogue. Espero conseguir transpor para esta página todas as situações que vou vivendo aqui. Na verdade, sempre gostei mais do velho método do diário escrito à mão mas nesta situação acho demasiado egoísta não partilhar todas as coisas que vou vivendo num sítio onde todos os dias são diferentes e inesperados.