Hoje teve lugar a operação CSI Moçambique. Um dos negócios que me foi passado pelo Salvador foi o de um cabeleireiro no Jambesse que tinha sido assaltado e tinham roubado a aparelhagem e a televisão e como é de esperar um cabeleireiro sem aparelhagem nem televisão não consegue cortar cabelos. (A verdade é que todas as barbearias e cabeleireiros por estes lados chamam a clientela pelo barulho que fazem).
O professor Kabura, dono do cabeleireiro e que ainda deve muito do dinheiro do empréstimo, é professor na escola secundária e recebe bastante bem para os salários de cá. A única questão é que ele sustenta a mulher, os filhos, os sogros, as cunhadas, os sobrinhos e mais não sei quantas pessoas. Como é óbvio fiquei cheia de pena e não tive coragem sequer para lhe pedir para pôr um bocadinho do salário de parte para pagar o empréstimo.
Acontece que quando fui ao Jambesse à procura do Amisse Assane andei também à procura do antigo espaço do cabeleireiro e encontrei duas pessoas que me disseram que o professor tinha mais um cabeleireiro no Tocolo e uma barbearia na ilha.
Como não poderia deixar de ser decidi investigar e hoje fui até ao Tocolo em busca do cabeleireiro do professor Kabura e tenho a dizer que o descobri. Depois desta investigação amanhã vou confrontá-lo com esta situação. Vamos ver como corre... É o chamado "Paga o que deves!"
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Quem é vivo sempre aparece...
Na quarta-feira passada fui numa missão impossível ao Jambesse (a primeira localidade do continente) à procura de um carpinteiro perdido desde a primeira edição. Não tinha a foto do senhor mas tinha o nome dele e a profissão. Com um nome tão estranho como Amisse Assane pensei que com um pouco de persistência conseguisse encontrar o senhor naquele dia.
Saí de manhã de casa com o Pi e a Marta em direcção ao Jambesse num maravilhoso chapa. Ao chegarmos, cada um foi para seu lado tentar contactar os seus empreendedores e lá fui eu na minha aventura que pareceu terminar rapidamente. Depois de perguntar a 10 pessoas pelo Amisse Assane que era carpinteiro veio um rapaz ter comigo a dizer que o pai dele se chamava Amisse e era carpinteiro. Fiquei então à espera do senhor durante cerca de uma hora quando descobri que o senhor não tinha como último nome Assane e não era portanto a pessoa que eu procurava. Já um pouco frustrada, continuei a minha busca pelo carpinteiro e descobri que o Jambesse era muito maior do que eu pensava e que na mesma localidade podiam existir cinco ou mais pessoas com o mesmo nome próprio e a mesma profissão. Cheguei mesmo a dar uns refrescos a uns miúdos por duas vezes a pensar que me tinham levado à pessoa certa. Depois de uma manhã inteira a andar no Jambesse decidi voltar para a ilha para recuperar o ânimo e voltar na manhã seguinte. Quando cheguei a casa falei no que se tinha passado e o Luís lembrou-se que havia umas fotos de alguns dos primeiros empreendedores no escritório. Lá fui eu então e realmente descobri a foto do Amisse Assane. Agora a minha tarefa tornava-se mais fácil.
Na manhã seguinte pus-me a caminho, novamente de chapa, até ao Jambesse. Logo ao chegar perguntei às primeiras pessoas que encontrei se conheciam o senhor da fotografia e se sabiam onde eu o podia encontrar. Rapidamente um senhor me respondeu que eu já tinha estado ao pé da casa do Amisse no dia anterior e disse-me onde era. Quando cheguei ao local comecei a perguntar à vizinhança qual era a casa e depois de todos terem mentido, lá consegui descobrir qual era a casa e fui bater à porta. Primeiro veio um rapaz à porta que apenas me disse que o Amisse não estava e depois de alguma insistência a mulher do Amisse veio à porta e disse que ele estava para Nampula. Deu-me a sensação que ela estaria a mentir e decidi então esperar ali à porta. Houve alguma insistência para que me fosse embora dizendo que o Amisse só voltaria na segunda-feira mas apercebi-me de que alguns miúdos me queriam dizer qualquer coisa mas ao mesmo tempo estavam com algum receio e decidi ficar e esperar. Após mais de quatro longas horas de espera o Amisse apareceu e falei um pouco com ele. Ele até pareceu satisfeito por me ver e tenho a dizer que no dia seguinte, sexta-feira, foi bater à nossa porta para entregar algum dinheiro. Senti-me uma verdadeira heroína até porque começo a bater records na minha capacidade de espera.
Saí de manhã de casa com o Pi e a Marta em direcção ao Jambesse num maravilhoso chapa. Ao chegarmos, cada um foi para seu lado tentar contactar os seus empreendedores e lá fui eu na minha aventura que pareceu terminar rapidamente. Depois de perguntar a 10 pessoas pelo Amisse Assane que era carpinteiro veio um rapaz ter comigo a dizer que o pai dele se chamava Amisse e era carpinteiro. Fiquei então à espera do senhor durante cerca de uma hora quando descobri que o senhor não tinha como último nome Assane e não era portanto a pessoa que eu procurava. Já um pouco frustrada, continuei a minha busca pelo carpinteiro e descobri que o Jambesse era muito maior do que eu pensava e que na mesma localidade podiam existir cinco ou mais pessoas com o mesmo nome próprio e a mesma profissão. Cheguei mesmo a dar uns refrescos a uns miúdos por duas vezes a pensar que me tinham levado à pessoa certa. Depois de uma manhã inteira a andar no Jambesse decidi voltar para a ilha para recuperar o ânimo e voltar na manhã seguinte. Quando cheguei a casa falei no que se tinha passado e o Luís lembrou-se que havia umas fotos de alguns dos primeiros empreendedores no escritório. Lá fui eu então e realmente descobri a foto do Amisse Assane. Agora a minha tarefa tornava-se mais fácil.
Na manhã seguinte pus-me a caminho, novamente de chapa, até ao Jambesse. Logo ao chegar perguntei às primeiras pessoas que encontrei se conheciam o senhor da fotografia e se sabiam onde eu o podia encontrar. Rapidamente um senhor me respondeu que eu já tinha estado ao pé da casa do Amisse no dia anterior e disse-me onde era. Quando cheguei ao local comecei a perguntar à vizinhança qual era a casa e depois de todos terem mentido, lá consegui descobrir qual era a casa e fui bater à porta. Primeiro veio um rapaz à porta que apenas me disse que o Amisse não estava e depois de alguma insistência a mulher do Amisse veio à porta e disse que ele estava para Nampula. Deu-me a sensação que ela estaria a mentir e decidi então esperar ali à porta. Houve alguma insistência para que me fosse embora dizendo que o Amisse só voltaria na segunda-feira mas apercebi-me de que alguns miúdos me queriam dizer qualquer coisa mas ao mesmo tempo estavam com algum receio e decidi ficar e esperar. Após mais de quatro longas horas de espera o Amisse apareceu e falei um pouco com ele. Ele até pareceu satisfeito por me ver e tenho a dizer que no dia seguinte, sexta-feira, foi bater à nossa porta para entregar algum dinheiro. Senti-me uma verdadeira heroína até porque começo a bater records na minha capacidade de espera.
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
As famosas falhas de energia
É quando começa a escurecer que a luz começa a ser precisa. Pode parecer um bocado estúpido dizer isto mas acho que eles ainda não perceberam esta ideia. A energia faltou no preciso momento em que íamos precisar dela e como não podíamos usar o fogão que é eléctrico fomos pôr mãos à obra a tentar acender o fogão a carvão que o Musse usa praticamente todos os dias. Que aventura! Gastámos uma caixa de fósforos, um jornal, umas palhotas do telhado do terraço e meio frasco de álcool. O desespero foi notório e quando os fósforos se acabaram decidimos mesmo ir para a rua onde a luz do luar sempre ilumina mais qualquer coisa. Agora estamos de volta à cozinha a fazer o jantar. Na verdade o Luís é que está de serviço a chefe de cozinha.
Cá nos vamos habituando às frequentes falhas de energia que se fazem sentir em toda a ilha, o que nos garante que não foi o cadillac que acabou.
Cá nos vamos habituando às frequentes falhas de energia que se fazem sentir em toda a ilha, o que nos garante que não foi o cadillac que acabou.
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
"Sou branca mas não sou burra"
Antes de andar um bocadinho para trás no tempo e contar algumas das peripécias vividas nos primeiros dias vou contar-vos a situação que me levou a decidir escrever este blog.
Depois de uma longa reunião ontem à noite decidimos juntar-nos em grupos de 2 pessoas para nos ajudarmos mutuamente nos casos de empreendedores com maiores problemas de pagamento do empréstimo. Eu fiquei então a ajudar o Gonçalo com alguns pescadores e ele de me ajudar a mim com um outro caso.
Foi fácil perceber que iria ser uma tarefa árdua encontrar os pescadores devedores depois de o Luís e o Gonçalo terem chegado ontem a casa a contar as respostas dadas pelos pescadores que estavam nas praias quando lhes perguntavam por nomes dos pescadores que procuravam. A verdade é que eles já imaginavam porque é que estes dois brancos andavam à procura dos colegas de profissão e como camaradas que são (ou não) protegiam-se uns aos outros mentindo.
Hoje de manhã eu e o Gonçalo pusemos os pés ao caminho para tentar encontrar um dos pescadores dele, o Chale Momade. Desde as praias onde trabalha até ao bairro onde vive, estranhamente quase ninguém sabia quem era o senhor. Foi uma manhã estafante de um lado para o outro a tentar descobrir onde vivia tal homem. Quando encontrávamos alguém disposto a levar-nos a algum sítio onde pudéssemos encontrar o Chale Momade lá aparecia outra pessoa no caminho que falava em macua com o nosso guia e rapidamente o guia passava a amnésico. Lá conseguimos algumas informações soltas mas nada que nos fizesse encontrar o Chale Momade.
Manhã chegada ao fim, fomos para casa almoçar. De tarde, eu, o Luís e o Gonçalo tínhamos que ir os três para a mesma zona da ilha de maneira que fomos juntos. Chegado ao bairro dos empreendedores com os quais ia ter, separei-me deles e fui em direcção a casa da Suhura e do professor Kabura. Para vos poupar a grandes secas vou saltar esta parte porque tirando o facto de ter estado 1h à espera deles à porta de casa e de ter acabado por os ir buscar a outro lugar, nada de muito interessante se passou.
A animação começa agora quando ligo ao Gonçalo a perguntar onde estava ele e o Luís para ir ter com eles. Estavam os dois na praia dos pescadores preparados para começar a caça ao pescador do Luís, o Sekeneke. Lá fui eu, curiosa por ver como seriam as respostas dos pescadores desta vez. Começámos então a fazer perguntas numa ponta da praia cheia de pescadores e mais 200 pessoas que atacavam os barcos a tirar peixe assim que algum se aproximava da costa. O primeiro senhor a quem o Luís pelo Sekeneke disse que ele tinha ido para outro distrito e que só voltava na próxima semana. Eu engelhei um bocado o nariz com esta resposta mentirosa e para grande espanto eles começaram a rir-se (nada que seja comum neles quando nos estão a mentir descaradamente). Ainda perguntei a este primeiro senhor se o podia ir chatear caso encontrasse o Sekeneke ainda esta semana ao que ele se voltou a rir descaradamente. Assim que saímos de junto do primeiro homem apercebemo-nos de um burburinho pela praia inteira em que só percebíamos "... Sekeneke!... Sekeneke!" O mecanismo de protecção tinha acabado de ser activado e tudo fazia prever agora que não fossemos mesmo encontrar o Sekeneke. As pessoas a quem perguntámos a seguir pelo Sekeneke variavam na localização que davam do homem. Ora em Nampula, ora no continente parecia mesmo que o Sekeneke era omnipresente, apenas com uma lacuna, não estava na ilha de Moçambique. Sempre a rirem na nossa cara e a mentirem com os dentes todos, tornava-se isto também hilariante para nós. Quando os confrontávamos com as várias versões que já tínhamos ouvido a resposta era um sorriso rasgado seguido de uma boa gargalhada. Cheguei mesmo a dizer-lhes para o caso de haver alguma dúvida que nós não acreditávamos em nada do que eles estavam a dizer sempre com um sorriso na cara igual ao que eles tinham. Foi então que o homem que tinha dito que o Sekeneke estava noutro distrito veio novamente ter connosco e disse que afinal ele estava no continente e voltava no dia seguinte. Como não podia deixar de ser, ri-me. Para concluir disse-lhes que apesar de ser branca, não era burra. Foi então que a veia de político do Gonçalo entrou em acção e, a pregar para a população daquela praia, de braços erguidos, dizia-lhes que só queria o bem do Sekeneke, da população e da ilha. Qualquer pessoa que ali passasse pensaria que as autárquicas estariam próximas. Foi o momento de política do dia que resultou no mesmo sorriso de sempre nas pessoas que estavam naquela praia. Com a deixa do Gonçalo decidimos então ir embora e ir ter com um padeiro. O Gonçalo sabia exactamente onde era a casa dele e fomos lá directos. Quando chegámos perguntámos por ele a uma senhora que estava na casa e ela disse, como boa moçambicana que é, que não sabia onde estava o padeiro, o que tinha ido fazer ou a que horas voltaria. Passou ali entretanto um senhor a quem perguntámos também pelo padeiro e que disse nem sequer saber de quem se tratava mas tentou convencer o Gonçalo, juntamente com a ajuda da outra senhora, a entrar dentro da casa. Foi então que o padeiro passou à porta e nos apercebemos da estratégia. O padeiro não teve grande escapatória e lá se apresentou e assistimos a mais um momento glorioso do Gonçalo agora numa vertente de economista a explicar o que eram os juros a um padeiro! Sem dúvida um dos momentos altos do dia.
Decidimos fechar então a barraca e voltar para casa mesmo sem que sentindo alguma frustração. A verdade é que não imaginávamos o que estava para vir.
Já em casa, no escritório, ouvimos o Musse (o empregado) a chamar: "Sekeneke está à porta!" e passado mais um bocado novamente: "Chale Momade está à porta!". O discurso de político do Gonçalo estava a dar os seus frutos e estamos confiantes de que o padeiro ainda venha a ir para a faculdade de economia da universidade de Maputo.
Os pescadores estiveram aqui em casa a falar bastante tempo com o Luís e o Gonçalo e foi hilariante ver como tudo se tornou de repente tão simples. Só esperemos que assim continue.
Esta foi uma história longa mas que não podia deixar de partilhar e foi por isso que estive até agora a escrevê-la.
Depois de uma longa reunião ontem à noite decidimos juntar-nos em grupos de 2 pessoas para nos ajudarmos mutuamente nos casos de empreendedores com maiores problemas de pagamento do empréstimo. Eu fiquei então a ajudar o Gonçalo com alguns pescadores e ele de me ajudar a mim com um outro caso.
Foi fácil perceber que iria ser uma tarefa árdua encontrar os pescadores devedores depois de o Luís e o Gonçalo terem chegado ontem a casa a contar as respostas dadas pelos pescadores que estavam nas praias quando lhes perguntavam por nomes dos pescadores que procuravam. A verdade é que eles já imaginavam porque é que estes dois brancos andavam à procura dos colegas de profissão e como camaradas que são (ou não) protegiam-se uns aos outros mentindo.
Hoje de manhã eu e o Gonçalo pusemos os pés ao caminho para tentar encontrar um dos pescadores dele, o Chale Momade. Desde as praias onde trabalha até ao bairro onde vive, estranhamente quase ninguém sabia quem era o senhor. Foi uma manhã estafante de um lado para o outro a tentar descobrir onde vivia tal homem. Quando encontrávamos alguém disposto a levar-nos a algum sítio onde pudéssemos encontrar o Chale Momade lá aparecia outra pessoa no caminho que falava em macua com o nosso guia e rapidamente o guia passava a amnésico. Lá conseguimos algumas informações soltas mas nada que nos fizesse encontrar o Chale Momade.
Manhã chegada ao fim, fomos para casa almoçar. De tarde, eu, o Luís e o Gonçalo tínhamos que ir os três para a mesma zona da ilha de maneira que fomos juntos. Chegado ao bairro dos empreendedores com os quais ia ter, separei-me deles e fui em direcção a casa da Suhura e do professor Kabura. Para vos poupar a grandes secas vou saltar esta parte porque tirando o facto de ter estado 1h à espera deles à porta de casa e de ter acabado por os ir buscar a outro lugar, nada de muito interessante se passou.
A animação começa agora quando ligo ao Gonçalo a perguntar onde estava ele e o Luís para ir ter com eles. Estavam os dois na praia dos pescadores preparados para começar a caça ao pescador do Luís, o Sekeneke. Lá fui eu, curiosa por ver como seriam as respostas dos pescadores desta vez. Começámos então a fazer perguntas numa ponta da praia cheia de pescadores e mais 200 pessoas que atacavam os barcos a tirar peixe assim que algum se aproximava da costa. O primeiro senhor a quem o Luís pelo Sekeneke disse que ele tinha ido para outro distrito e que só voltava na próxima semana. Eu engelhei um bocado o nariz com esta resposta mentirosa e para grande espanto eles começaram a rir-se (nada que seja comum neles quando nos estão a mentir descaradamente). Ainda perguntei a este primeiro senhor se o podia ir chatear caso encontrasse o Sekeneke ainda esta semana ao que ele se voltou a rir descaradamente. Assim que saímos de junto do primeiro homem apercebemo-nos de um burburinho pela praia inteira em que só percebíamos "... Sekeneke!... Sekeneke!" O mecanismo de protecção tinha acabado de ser activado e tudo fazia prever agora que não fossemos mesmo encontrar o Sekeneke. As pessoas a quem perguntámos a seguir pelo Sekeneke variavam na localização que davam do homem. Ora em Nampula, ora no continente parecia mesmo que o Sekeneke era omnipresente, apenas com uma lacuna, não estava na ilha de Moçambique. Sempre a rirem na nossa cara e a mentirem com os dentes todos, tornava-se isto também hilariante para nós. Quando os confrontávamos com as várias versões que já tínhamos ouvido a resposta era um sorriso rasgado seguido de uma boa gargalhada. Cheguei mesmo a dizer-lhes para o caso de haver alguma dúvida que nós não acreditávamos em nada do que eles estavam a dizer sempre com um sorriso na cara igual ao que eles tinham. Foi então que o homem que tinha dito que o Sekeneke estava noutro distrito veio novamente ter connosco e disse que afinal ele estava no continente e voltava no dia seguinte. Como não podia deixar de ser, ri-me. Para concluir disse-lhes que apesar de ser branca, não era burra. Foi então que a veia de político do Gonçalo entrou em acção e, a pregar para a população daquela praia, de braços erguidos, dizia-lhes que só queria o bem do Sekeneke, da população e da ilha. Qualquer pessoa que ali passasse pensaria que as autárquicas estariam próximas. Foi o momento de política do dia que resultou no mesmo sorriso de sempre nas pessoas que estavam naquela praia. Com a deixa do Gonçalo decidimos então ir embora e ir ter com um padeiro. O Gonçalo sabia exactamente onde era a casa dele e fomos lá directos. Quando chegámos perguntámos por ele a uma senhora que estava na casa e ela disse, como boa moçambicana que é, que não sabia onde estava o padeiro, o que tinha ido fazer ou a que horas voltaria. Passou ali entretanto um senhor a quem perguntámos também pelo padeiro e que disse nem sequer saber de quem se tratava mas tentou convencer o Gonçalo, juntamente com a ajuda da outra senhora, a entrar dentro da casa. Foi então que o padeiro passou à porta e nos apercebemos da estratégia. O padeiro não teve grande escapatória e lá se apresentou e assistimos a mais um momento glorioso do Gonçalo agora numa vertente de economista a explicar o que eram os juros a um padeiro! Sem dúvida um dos momentos altos do dia.
Decidimos fechar então a barraca e voltar para casa mesmo sem que sentindo alguma frustração. A verdade é que não imaginávamos o que estava para vir.
Já em casa, no escritório, ouvimos o Musse (o empregado) a chamar: "Sekeneke está à porta!" e passado mais um bocado novamente: "Chale Momade está à porta!". O discurso de político do Gonçalo estava a dar os seus frutos e estamos confiantes de que o padeiro ainda venha a ir para a faculdade de economia da universidade de Maputo.
Os pescadores estiveram aqui em casa a falar bastante tempo com o Luís e o Gonçalo e foi hilariante ver como tudo se tornou de repente tão simples. Só esperemos que assim continue.
Esta foi uma história longa mas que não podia deixar de partilhar e foi por isso que estive até agora a escrevê-la.
Não foi preciso muito tempo em Moçambique para me fazer começar a escrever este blogue. Espero conseguir transpor para esta página todas as situações que vou vivendo aqui. Na verdade, sempre gostei mais do velho método do diário escrito à mão mas nesta situação acho demasiado egoísta não partilhar todas as coisas que vou vivendo num sítio onde todos os dias são diferentes e inesperados.
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